Douglas Eralldo

Incompreendidos

Zumbis não deveriam ajudar humanos. Mas nasci único, e os berros da garotinha no interior da igreja fizeram meu coração corroído pela morte encher-se de remorso, afinal, eu lançara sobre a cidade a pior das maldições. Por minha culpa os mortos andavam novamente. E agora sentiam a mesma fome que senti ao despertar, e não tinham a consciência, nem ao menos a piedade de poupar garotinhas indefesas, padres, nem freiras…  A igreja estava cercada.

Dentre todas as batalhas por manter-me nem vivo, nem morto, talvez aquela tivesse sido a mais difícil entre todas. Até mesmo da vez que derrubei toda a corporação. A cidade ruía, os mortos já eram proporcionalmente em maior número que os vivos. E ainda mais raros eram os refúgios dos sobreviventes. A igreja estava num destes últimos pilares da resistência, aos que teimavam em não se juntar aos corpos espalhados sobre a terra.

 O fedor de carniça era insuportável. Por toda a cidade jaziam corpos torrados, já que o sol queimava a sensível pele de quem já está morto. No entanto, a necessidade de manterem-se como zumbis os ensinara esconder-se ao dia, e atacarem à noite. A lua crescia cheia sobre a igreja, e pelas vidraças se podiam ver as velas acesas. Naquela noite, viveriam os homens terror inominável.

 Não havia muitos lugares exalando cérebros frescos. Portanto, os mortos que permaneceram pela área central se mantinham firme ao cerco. Como não há armas em igrejas restava ao padre, e a meia dúzia de homens e uma dezena de crianças, rezarem para que as trancas não cedessem. Porém zumbis são fortes. E se tornam ainda mais fortes quando em grupo, o que inevitavelmente levaria ao sucesso. No mínimo uma centena empurrava a madeira, e a porta a cada avanço dava sinais de cair.

O que eu podia fazer? Era um dos mortos. O primeiro. O Único. O responsável pelas mortes que estavam por acontecer, e as tantas outras que tinham sido consumadas… Eu não poderia assistir resignado ao que estava por vir… Depois de tanto sangue, ver sob minha culpa a transformação de um padre em zumbi era um fardo demasiadamente pesado para um morto já tão cheio de culpa.

Eu tive de participar daquela batalha.

O facão ainda estava simbioticamente preso a minha mão decrépita. Era meu instrumento de salvação. O padre no coração da igreja se socorria a um crucifixo. Eu, a um facão cuja lâmina enferrujada não tinha impedido de decepar centenas de cabeças de mortos que tentaram me matar pela segunda vez.

 Aproximei-me dos putrefatos, e antes que sentissem o perigo manejei a arma branca fazendo rolar pelo solo as primeiras cabeças. E a cada um que saltava sobre mim tinha o mesmo destino: a decapitação. Por vezes vi-me perto de morrer definitivamente, pois eram muitos. No entanto não menos espertos que eu, e o facão continuava rasgando suas carnes apodrecidas, enquanto seus corpos se perdiam no próprio eixo. Quando chegavam perto, estocava seus corações desferindo o golpe fatal, e tombavam na pequena escadaria.

Foi com dificuldade que o número foi se tornando cada vez mais igual, até que restassem apenas dois zumbis, e por fim quando a morte vinha saltando sobre mim, o facão alçou vôo, e decepou em pleno ar o último dos mortos desejosos do cérebro do santo padre. Respirei com alívio.

 Então ouvi o ranger da madeira. Do interior da igreja, os fugitivos estavam curiosos pela ausência de novos ataques. Á medida que as portas se abriam revelavam a silueta de um homem que provavelmente vestia uma batina. Abriam a casa de nosso senhor de forma receosa, e se pudesse ver além das sombras da noite, talvez encontrasse em seus rostos expressões de surpresa em seus rostos.

 — Milagre. Bradou o homem que vinha a frente, vendo os zumbis caídos próximos á casa de Deus.

 Eu deixara de crer em milagres fazia muito tempo. Mas não queria contradizê-lo. Escapava pelas sombras das árvores da praça deixando-os inertes em sua fé, quando a mesma garotinha que berrava aos prantos, alertou o grupo: — Ei! Olha lá, é um deles…

A voz que se seguiu conhecia bem. Era o próprio pároco, que para minha surpresa sabia atirar.

— É só um. Para ele temos munição suficiente. Disse, fazendo logo depois a espingarda berrar, colorindo a noite com as faíscas de tiros, que zuniam em minha direção… Descobri naquela noite, que não importa o que façam, zumbis serão sempre incompreendidos!


Sobre o autor:

Douglas Eralldo, nasceu em 15 de dezembro de 1980, no município de Santa Cruz do Sul, mas no entanto tem como naturalidade do município de Pantano Grande/RS, onde mora desde os cinco anos. Filho de uma agricultora e um pedreiro formou-se no ensino médio, e por causa da falta de recursos financeiros, e pela necessidade de trabalhar, não cursou ensino superior.Em 2001 começou a escrever para jornais locais, como O gigante e Folha Riopardense. Além disso, tem artigos publicados pela Gazeta do Sul, e em 2005 iniciou a Coluna Contando Histórias no Jornal Diário Pantanense, hoje presente no Jornal Destak. Teve ainda o poema “Incompleto” publicado no livro Seleta de Versos 13, da Editora Borck, e o Conto, “Mercador de Almas” na antologia Noctâmbulos da Editora Andross. Divulga e publica seus trabalhos na internet, no site: Recanto das Letras, e no blog: e-conto.

De estilo literário ainda em formação, Douglas Eralldo discorre sem medo algum, linhas literárias que vão da auto-ajuda, ao terror, que flertam com o suspense e a ficção científica, falam do cotidiano, e contam causos, e que apresenta aos leitores uma pluralidade de obras.

 

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