Poeta da semana: Augusto dos Anjos!!!

Nessa semana escolhemos o poeta Augusto dos Anjos por ser um dos poetas mais singulares da história da produção poética brasileira. Como vocês poderão perceber, ele não fala de amor, lágrimas e suspiros. Os temas de seus poemas são consideravelmente sombrios e mostram um lado mais sinistro dos sentimentos humanos.

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884-1914) foi um poeta pré-modernista, além disso era um dos poetas mais críticos do seu tempo, e até hoje suas obras são admiradas tanto por leigos como por críticos literários.

Principais obras de Augusto:

– Saudade (poema) – 1900

– Eu e Outras Poesias (único livro de poemas) – 1912

– Psicologia de um vencido (soneto)

– Versos íntimos

Agora vamos ver algumas de suas obras:

 Abandonada!!!

Bem depressa sumiu-se a vaporosa
Nuvem de amores, de ilusões tão bela;
O brilho se apagou daquela estrela
Que a vida lhe tornava venturosa!

Sombras que passam, sombras cor-de-rosa
– Todas se foram num festivo bando,
Fugazes sonhos, gárrulos voando
– Resta somente um’alma tristurosa!

Coitada! o gozo lhe fugiu correndo,
Hoje ela habita a erma soledade,
Em que vive e em que aos poucos vai morrendo!

Seu rosto triste, seu olhar magoado,
Fazem lembrar em noute de saudade
A luz mortiça d’um olhar nublado.

 A obsessão do sangue!!!

Acordou, vendo sangue… Horrível! O osso
Frontal em fogo… Ia talvez morrer,
Disse. Olhou-se no espelho. Era tão moço,
Ah! Certamente não podia ser!

Levantou-se. E, eis que viu, antes do almoço,

Na mão dos açougueiros, a escorrer
Fita rubra de sangue muito grosso,
A carne que ele havia de comer!

No inferno da visão alucinada,
Viu montanhas de sangue enchendo a estrada,
Viu vísceras vermelhas pelo chão…

E amou, com um berro bárbaro de gozo,
O monocromatismo monstruoso
Daquela universal vermelhidão!

 

Psicologia de um vencido

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância…
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme – este operário das ruínas –
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e á vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

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