Um pouco mais de Moacyr Scliar

Já tivemos oportunidade de falar sobre esse inesquecível autor aqui no blog. Mas nunca é de mais falar sobre Moacyr Scliar! Sua vasta e extraordinária obra vai desde os contos, as crônicas, até o romance. É difícil dizer no que Scliar se saiu melhor, pois todos os seus textos são bons, com enredos que surpreendem todos os tipos de leitores.

Nesse trimestre, o projeto Ler (antigo Ler é Saber) preparou um material sobre o autor, com vários textos dele.

Além desse material, selecionamos dois textos especiais, que estão mais relacionados ao público mais jovem.

Confira:

Namoro & Futebol

Eles se conheceram na escola, onde cursavam a mesma classe. E foi o legítimo amor à primeira vista. Uma semana depois já estavam namorando, e namorando firme. Eram desses namorados que fazem as pessoas suspirar e dizer baixinho: meu Deus, o amor é lindo. Ele, 17 anos, alto, forte, simpático; ela, 16, uma beleza rara. Logo estavam se visitando em casa. Os pais de ambos davam a maior força para o namoro e antecipavam um casamento no futuro: os dois formavam o casalzinho ideal. Inclusive porque gostavam das mesmas coisas: ler, ir ao cinema, passear no parque.

Mas alguma coisa tinha de aparecer, não é mesmo? Alguma coisa sempre aparece para perturbar mesmo o idílio mais perfeito.

Foi o futebol.

Ele era maluco pelo esporte. Jogava num dos vários times da escola, no qual era o goleiro. Um grande e esforçado goleiro, cujas defesas muitas vezes arrancavam aplausos da torcida.

Ela costumava assistir as partidas. No começo nem gostava muito, mas então passou a se interessar. Um dia disse ao namorado que queria jogar também, no time das meninas da escola. Para surpresa dela, ele se mostrou radicalmente contrário à idéia. Disse que futebol era coisa para homem, que ela acabaria se machucando. Se queria praticar algum esporte, deveria escolher o vôlei. Ela ficou absolutamente revoltada com o que considerou uma postura machista dele. Disse que iria começar a treinar de qualquer jeito.

Começou mesmo. E levava jeito para a coisa: driblava bem, tinha um chute potente. Só que aquilo azedava cada vez mais as relações entre eles. Discutiam com frequência e acabaram decidindo dar um tempo. Uma notícia que deixou a todos consternados.

Passadas umas semanas, a surpresa: o time das meninas desafiou o time em que ele era goleiro para uma partida.

Ele tentou o possível para convencer os companheiros a não jogar com elas. No fundo, porém, não queria se ver frente a frente com a namorada, ou ex-namorada. Os outros perceberam isso, disseram que era bobagem e o jogo foi marcado.

Ele estava tenso, nervoso. E não podia tirar os olhos dela. Agora tinha de admitir: jogava muito bem, a garota. Era tão rápida, quando graciosa e, olhando-a, ele sentia que, apesar das discussões, ainda gostava dela.

De repente, o pênalti. Pênalti contra o time dos garotos. E ela foi designada para cobrá-lo. Ali estavam os dois, ele nervoso, ela absolutamente impassível. Correu para a bola -no último segundo ainda sorriu- e bateu forte. Um chute violento que ele, bem posicionado, defendeu. Sob os aplausos da torcida.

O jogo terminou zero a zero. Eles se reconciliaram e agora estão firmes de novo. Mas uma dúvida o persegue: será que ela não chutou a bola para que ele fizesse a brilhante defesa? Não teria sido aquilo um gesto, por assim dizer, de reconciliação?


Ela se recusa a responder a essa pergunta. Diz que um pouco de mistério dá sabor ao namoro. E talvez tenha razão. O fato é que, desde então, ela já cobrou vários pênaltis. E não errou nenhum.

OS ÓCULOS MÁGICOS

Quando eu era criança tive um problema. Melhor dizendo, tive vários problemas, mas havia um que era bem chato. Eu precisava usar óculos. Meus pais tinham me levado num médico especialista em olhos e ele, depois de me examinar, fez o anúncio em tom solene:
– Você tem que usar óculos – disse e entregou a receita ao meu pai.
Bem, que eu precisava usar óculos, isso eu já sabia. Porque a verdade é que eu não enxergava bem. Na aula, tinha de sentar na primeira fila e, mesmo assim, às vezes não conseguia ler o que a professora escrevia na lousa. Mais: vivia dando topadas por toda a parte, tanto que minhas pernas estavam todas esfoladas.
Claro que eu precisava de óculos. Só que eu não queria usar óculos. Achava que todo o mundo iria debochar de mim, que me dariam apelidos, tipo: Quatro Olhos. Meu pai, minha mãe e minha irmã mais velha, a Teresa, insistiram, lembraram o que o médico tinha falado. Inútil.
– Não uso óculos e está acabado! – eu dizia.
Bom, hoje uso óculos. Vocês perguntarão: mas, então, você mudou? Mudei. E mudei graças à vó Cornélia. Vó Cornélia era a mãe do meu pai. Eu não a via muito seguidamente; ela morava no interior e só de vez em quando aparecia para nos visitar. Mas, quando vinha, era um acontecimento, principalmente para mim. Porque a vó Cornélia, uma velhinha miúda, magrinha, tinha fama de feiticeira. Todo o mundo dizia que ela podia fazer mágicas incríveis. O meu sonho era ver alguma mágica da vó Cornélia.
Logo depois da consulta ao médico ela veio nos visitar. Nos primeiros dias correu tudo normal, como se ela fosse uma avó igual às outras. Mas uma noite me chamou. Disse que tinha um presente especial para mim e me deu uma caixa plástica. Abri, e o que havia lá dentro? Óculos.
– Estes óculos são mágicos – ela disse. – Se você usá-los sempre, de repente vai ver coisas maravilhosas, coisas que você nunca viu antes.
Foi assim que comecei a usar óculos. E nunca mais parei. A vó Cornélia morreu há muito tempo. E vocês perguntarão: e aquela história da mágica, era mentira dela? Não, não era mentira. Ou, pelo menos, não era totalmente mentira. Porque os óculos foram mágicos para mim. Agora eu podia enxergar direito e podia ver coisas que nunca tinha visto antes. Com os óculos eu tinha descoberto a magia da vida.

Moacyr Scliar


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